As circunstâncias que provocam stress podem ser de natureza física, psicológica ou social. Segundo Adriano Vaz Serra, «o barulho ou o calor excessivos são exemplos do primeiro tipo. A existência de conflitos conjugais, ou o receio de falar com estranhos podem originar o segundo tipo. Uma situação de desemprego ou um vencimento pobre, que não dê para cobrir as necessidades pessoais, exemplificam o stress de natureza social».
Todavia, para qualquer um de nós, o stress mais importante é de natureza psicológica, particularmente quando envolve aspectos interpessoais. O stress não deve, contudo, ser sempre considerado como prejudicial: «Em situações intermédias, é útil porque se torna propulsivo, constitui uma fonte de impulso que faz com que um indivíduo tome decisões, resolva problemas, melhore o seu funcionamento e as suas aptidões», menciona Adriano Vaz Serra.
O stress, neste sentido, «ajuda a motivar o ser humano para atingir objectivos desejáveis, confere algum sabor à vida e pode constituir um incentivo de realização profissional e pessoal», acrescenta o psiquiatra, salientando que, «de qualquer forma, é preciso deixar claro que o stress intenso e prolongado é prejudicial». Aliás, se intenso e com efeito prolongado, há diversas funções intelectuais que se alteram, como a «percepção» e a «atenção», fazendo com que a pessoa deixe de abranger todo o leque de alternativas possíveis para a resolução das suas dificuldades.
De acordo com o nosso interlocutor, «se a percepção do meio ambiente fica distorcida, o indivíduo é levado a fazer interpretações incorrectas ao que lhe acontece. Intelectualmente, sente-se incapaz de se manter produtivo, irrita-se e impacienta-se com mais facilidade; e, se se torna muito ansioso, entra num estado de apreensão». «No que respeita à atenção, se a ansiedade é intensa, haverá uma maior dificuldade em detectar erros nas tarefas que exigem uma atenção contínua. Estes transtornos levam a que a pessoa fique incapacitada para compreender e recordar toda a informação relevante que é necessária para uma resolução óptima dos seus problemas», aponta Adriano Vaz Serra.
Sobre a relação com a psicopatologia, o stress pode constituir uma causa directa ou, pelo menos, um factor contribuinte do aparecimento de transtornos psiquiátricos. Nos casos em que se verificam manifestações psicopatológicas, pode exacerbar e manter os sintomas.
Nos esquizofrénicos, por exemplo, tem sido comprovado que agrava os sintomas da doença. No entanto, relativamente às manifestações psicopatológicas, há autores que referem não haver qualquer circunstância indutora de stress que seja específica na sua relação com o aparecimento de determinado tipo de sintomas.
«Em resposta ao stress, podem ocorrer manifestações psiquiátricas muito diversas, desde sintomas de natureza depressiva ou ansiosa até alterações do comportamento, ilusões e alucinações», esclarece Adriano Vaz Serra. Nesta matéria, o psiquiatra desenvolveu, em 2000, uma escala de interesse clínico.
Chama-se 23QVS, tem a função de avaliar exactamente a vulnerabilidade ao stress em relação com o desenvolvimento de psicopatologia e já foi usada em numerosas situações e por vários especialistas da área.
«A designação foi determinada pelo facto da versão final da escala ter ficado com 23 questões que se destinam a avaliar a vulnerabilidade que um indivíduo tem ao stress», explica o autor da dita escala. O «Inventário Clínico de Autoconceito» (1985), o «Inventário de Resolução de Problemas» (1987), o «Inventário de Avaliação Clínica da Depressão» (IACLIDE, 1994) e a «Escala de Avaliação de uma Personalidade Dependente» (INDEP, 1996) são outras escalas concebidas pelo psiquiatra.
«Do ponto de vista clínico», sintetiza Adriano Vaz Serra, «não podemos aspirar utopicamente a retirar o stress da vida de um ser humano. É impossível impedir o aparecimento de uma condição inerente à vida, que surge de factores do meio ambiente, é próprio das interacções entre os seres humanos e do desenrolar da vida quotidiana».
O especialista conclui, no entanto, que «podemos ensinar estratégias que ajudem o indivíduo a lidar com as suas dificuldades, de forma a não ficar nem bloqueado nem doente».
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