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A Veneza do Norte (2)


29.07.10 - 23:14


Sobre os canais


Hamburgo é denominada "a Veneza do Norte", ainda que as suas características sejam completamente diferentes, tendo em vista a volumetria, o papel económico e a sua vocação moderna direccionada para o desenvolvimento. A comparação com Veneza deriva do facto de ser uma cidade sobre água: possui miríades de canais que funcionam como vias fluviais, onde decorrem as suas transacções comerciais, e milhares de ruas que os atravessam em 2331 pontes, mais do que as de Veneza, Amesterdão e Londres todas juntas.


A água é tudo para Hamburgo. Na água se desenvolveu, na água fez crescer o seu porto e os seus ricos negócios e na água passam os tempos livres os hamburgueses nos dias de Verão, quando as velas das embarcações desportivas sulcam o Alster por entre os barcos turísticos. Nos Invernos mais rigorosos o lago transforma-se, por vezes, numa imensa pista de gelo. As velas cedem então lugar aos amadores de patinagem.

O Aussenalster é rodeado por uma ampla zona de prados incluída no Alster Park. Há tal tranquilidade que parece estar-se em pleno campo se bem que no meio de uma grande cidade industrial.


Os hamburgueses não precisam de fazer grandes viagens para passar um serão em pleno verde, pois um passeio nas margens do Alster ocupa agradavelmente três ou quatro horas. A zona de parques prossegue passando por Stephansplatz, depois por Musikhalle, pelo palácio de Justiça, pelo Museu para a História Hamburguesa, pelo Monumento a Bismarck e chega finalmente à margem do Elba. Inútil será dizer que os hamburgueses gostam do verde e da natureza de tal forma que os consideram parte integrante da cidade e da sua vida, respeitando-os a ponto de, em algumas ruas residenciais, ser vulgar encontrar cartazes do tipo "Atenção, ramos baixos". Isto porque os jardineiros podam e aparam as árvores, mas sempre que a situação o permite, preferem chamar a atenção dos passantes em vez de mutilar desnecessariamente uma planta.

Ao longo dos tempos, grandes responsáveis e mecenas da cultura foram reconstruindo o que se ia degradando. Porém, sempre com o cuidado de preservar as linhas originais, características do Norte da Alemanha
A moderna Kennedybrucke e a paralela e bem mais antiga e famosa Lombardsbrucke assinalam a passagem do Alsenalster para o Binnenalster, a sala de visitas de Hamburgo: uma enorme praça de água onde se defrontam o Vier Jahreszeiten, um dos hotéis mais famosos da cidade, e o Jung-fernstieg, de onde saem os barcos que fazem a volta do lago e dos canais. O Alster Fleet, um dos principais canais, liga o lago ao Elba desaguando na zona portuária.

Renascida

Pela cidade foram, entretanto, aparecendo novas tendências das quais podemos considerar o Bairro dos Mercadores, fruto da criatividade do expressionista Fritz Hoger. Porém, em muitos lugares podem observar-se "rasgos" inéditos sem, contudo, chocarem com os cenários mais antigos
Na margem do Binnenalster situa-se também o famoso Alsterpavillon, o café histórico preferido dos hamburgueses, que foi, ao longo dos tempos, destruído cinco vezes e outras tantas reconstruído. Enquanto se toma um café numa das suas mesas, assiste-se ao passeio pelas boutiques hamburguesas nas Alterarkaden, as arcadas de voltas elípticas construídas depois do pavoroso incêndio de 1842, que destruiu um terço da cidade, mas que ao mesmo tempo proporcionou o seu renascimento. Nem sempre os males são prejudiciais, pois Hamburgo estava bastante degradada e sobretudo em péssimas condições higiénicas, uma vez que os canais serviam também de esgoto. Foi a melhor ocasião para que tudo fosse saneado.


William Lindley, um engenheiro inglês, teve a importante missão de proceder ao saneamento completo da cidade e Hamburgo deve-lhe eterna gratidão. Lindley criou um novo sistema de canais muito avançado, novas condutas de água higiénicas e seguras, um sistema de iluminação a gás e, sobretudo, resolveu o grande problema da recolha das imundícies. Por outro lado, quanto ao aspecto urbanístico, foram os grandes empresários e os mercadores a reconstruir aquilo que o fogo destruíra, uma vez que as ideias arquitectónicas do grande engenheiro inglês não agradaram à classe dirigente e teriam sido muito pesadas para os cofres municipais.

Das cinzas ressurgiu assim a nova Hamburgo que então adquiriu o cunho estilístico que ainda hoje a caracteriza.


Depois do grande incêndio, que parece ter eclodido na Deichstrasse, Hamburgo vestiu-se de novo e parte dos antigos edifícios foram reconstruídos segundo novos gostos e critérios. Como é o caso do estilo neogótico da igreja de St. Petri, cujas origens remontam aliás ao século xii, e da igreja de St. Nikolai, que, passados apenas 100 anos, foi de novo reduzida a escombros pela guerra: hoje nada dela resta a não ser a torre neogótica que se eleva a 145 metros.


Infelizmente, depois do incêndio, Hamburgo viria ainda a sofrer a fúria destruidora da Segunda Guerra Mundial, que reduziu a ruínas mais de metade das habitações, quase todo o porto e 40 por cento das indústrias. Em 1897 foi construída a Rathaus, ou seja, os Paços do Concelho, no estilo ecléctico da época Guilhermina e, em 1839, o Palácio da Bolsa, que lhe fica adjacente. Fronteira a estes edifícios abre-se a Rathausmarkt, ou Praça do Município, rodeada de construções neoclássicas e banhada pelo Alsterfleet, onde nadam tranquilamente cisnes e patos.

Ainda que possa parecer estranho numa grande cidade, Hamburgo deve ser visitada a pé, pois só assim é possível apreciar o seu fascínio, feito de recantos particulares, de pontes que galgam os canais revelando perspectivas pitorescas; o centro histórico é tão denso e cheio de vida que nem parece pertencer a uma metrópole.

Memórias


Vagueando pela Altstadt pode-se apreciar plenamente zonas como o Bairro dos Mercadores, que se desenvolveu no início do século xx com estruturas características de tijolo vermelho, obra do arquitecto expressionista Fritz Hoger. O mais famoso dos seus edifícios é a Chilehaus, construído em 1920 para habitação por um rico comerciante que tinha feito fortuna no Chile, de onde deriva o insólito nome.

O edifício da Kunsthalle é logo a seguir à estação ferroviária para norte. Foi construído em 1868 e ampliado em 1919. É hoje sede de um museu onde se conserva a maior colecção de arte de Hamburgo. As obras que estão nas suas salas vão da Idade Média até ao século XX, além de uma secção dedicada à arte contemporânea.

Na galeria dos mestres antigos estão 36 painéis provenientes do altar-mor de St. Petri, executados em 1383 por Mestre Bertram. Há uma área inteiramente dedicada à pintura alemã do século XIX.

Os canais que atravessam a cidade permitem a utilização da água para diversos transportes e actividades. E a estação ferroviária que a serve reproduz a grandeza do burgo
Na Neustadt a grande igreja barroca de St. Michaelis, construída em 1907 sobre um edifício anterior, é famosa, para além da sua beleza, pela vista sobre o porto que se pode admirar do alto dos 132 degraus do seu campanário, e também por ter recusado a Bach o cargo de organista. Talvez para se desculpar de tão grosseiro erro, oferece hoje belíssimos concertos nos seus três órgãos, sendo frequente que os 2500 lugares sentados se esgotem.

Num pequeno beco denominado Krayenkamp, junto a St. Michaelis, encontram-se as Krameramtswohnungen, as Casas das Viúvas, construídas em 1676 como habitações para as viúvas dos membros da corporação dos pequenos comerciantes. São das poucas construções originais do século xvii poupadas pelo terrível incêndio de 1842. Durante dois séculos mantiveram a sua função, depois tornaram-se apartamentos para idosos até se transformarem em atracção turística. Isto foi decerto uma coisa boa, pois são de tão reduzidas dimensões, que é difícil movimentarmo-nos no seu interior. Mais parece terem sido construídas para uma família de gnomos que para as viúvas dos mercadores, de tal forma são pequenas as salas, baixas as portas ? a ponto de nos obrigar a curvar ?, e estreitas as escadas. Como se não bastasse, também o beco onde se situam é estreitíssimo. No entanto, a sua estrutura em madeira e alvenaria mantém intacto o fascínio de um passado que, a não ser ali, o fogo destruiu para sempre.


A atmosfera da antiga Hamburgo ainda se pode respirar também no empedrado da Peterstrasse, uma travessa de Holsten Wall que percorre o Parque Grosse Wallanlagen. Numa das suas belíssimas casas barrocas completamente restauradas, a que tem o número 39, nasceu o compositor Johannes Brahms. É uma das 18 casas em que o famoso músico morou em Hamburgo e é hoje a sede da "Brahms Gesellschaft", onde se guardam manuscritos e móveis da época que foram do grande mestre. Realizam-se também concertos de câmara com as suas composições menos conhecidas. Um passeio pelo relvado do Grosse Wallanlagen e chega-se ao Justizgebaude, os Paços de Justiça, e ainda mais além encontra-se o edifício neo-barroco da Musikhalle, na Karl-Muck-Platz, sala de concertos e sede da Orquestra Filarmónica do Estado de Hamburgo.

Não esquecer uma incursão pela modernidade e pela tecnologia: a Torre da Televisão de Hamburgo atinge os 280 metros de altura. A plataforma panorâmica e o restaurante giratório estão à quota dos 128 metros, o suficiente para jantar perante um panorama excepcional.