Sobre os
canais
Hamburgo é denominada "a Veneza
do Norte", ainda que as suas características sejam completamente
diferentes, tendo em vista a volumetria, o papel económico e a sua
vocação moderna direccionada para o desenvolvimento. A comparação
com Veneza deriva do facto de ser uma cidade sobre água: possui
miríades de canais que funcionam como vias fluviais, onde decorrem
as suas transacções comerciais, e milhares de ruas que os
atravessam em 2331 pontes, mais do que as de Veneza, Amesterdão e
Londres todas juntas.
A água é tudo para Hamburgo. Na água se desenvolveu, na
água fez crescer o seu porto e os seus ricos negócios e na água
passam os tempos livres os hamburgueses nos dias de Verão, quando
as velas das embarcações desportivas sulcam o Alster por entre os
barcos turísticos. Nos Invernos mais rigorosos o lago
transforma-se, por vezes, numa imensa pista de gelo. As velas cedem
então lugar aos amadores de patinagem.
O
Aussenalster é rodeado por uma ampla zona de prados incluída no
Alster Park. Há tal tranquilidade que parece estar-se em pleno
campo se bem que no meio de uma grande cidade industrial.
Os hamburgueses não
precisam de fazer grandes viagens para passar um serão em pleno
verde, pois um passeio nas margens do Alster ocupa agradavelmente
três ou quatro horas. A zona de parques prossegue passando por
Stephansplatz, depois por Musikhalle, pelo palácio de Justiça, pelo
Museu para a História Hamburguesa, pelo Monumento a Bismarck e
chega finalmente à margem do Elba. Inútil será dizer que os
hamburgueses gostam do verde e da natureza de tal forma que os
consideram parte integrante da cidade e da sua vida, respeitando-os
a ponto de, em algumas ruas residenciais, ser vulgar encontrar
cartazes do tipo "Atenção, ramos baixos". Isto porque os
jardineiros podam e aparam as árvores, mas sempre que a situação o
permite, preferem chamar a atenção dos passantes em vez de mutilar
desnecessariamente uma planta.
A moderna Kennedybrucke e a paralela e bem mais
antiga e famosa Lombardsbrucke assinalam a passagem do Alsenalster
para o Binnenalster, a sala de visitas de Hamburgo: uma enorme
praça de água onde se defrontam o Vier Jahreszeiten, um dos hotéis
mais famosos da cidade, e o Jung-fernstieg, de onde saem os barcos
que fazem a volta do lago e dos canais. O Alster Fleet, um dos
principais canais, liga o lago ao Elba desaguando na zona
portuária.
Renascida
Na margem do Binnenalster situa-se também o famoso
Alsterpavillon, o café histórico preferido dos hamburgueses, que
foi, ao longo dos tempos, destruído cinco vezes e outras tantas
reconstruído. Enquanto se toma um café numa das suas mesas,
assiste-se ao passeio pelas boutiques hamburguesas nas
Alterarkaden, as arcadas de voltas elípticas construídas depois do
pavoroso incêndio de 1842, que destruiu um terço da cidade, mas que
ao mesmo tempo proporcionou o seu renascimento. Nem sempre os males
são prejudiciais, pois Hamburgo estava bastante degradada e
sobretudo em péssimas condições higiénicas, uma vez que os canais
serviam também de esgoto. Foi a melhor ocasião para que tudo fosse
saneado.
William
Lindley, um engenheiro inglês, teve a importante missão de proceder
ao saneamento completo da cidade e Hamburgo deve-lhe eterna
gratidão. Lindley criou um novo sistema de canais muito avançado,
novas condutas de água higiénicas e seguras, um sistema de
iluminação a gás e, sobretudo, resolveu o grande problema da
recolha das imundícies. Por outro lado, quanto ao aspecto
urbanístico, foram os grandes empresários e os mercadores a
reconstruir aquilo que o fogo destruíra, uma vez que as ideias
arquitectónicas do grande engenheiro inglês não agradaram à classe
dirigente e teriam sido muito pesadas para os cofres municipais.
Das cinzas ressurgiu assim a nova Hamburgo
que então adquiriu o cunho estilístico que ainda hoje a
caracteriza.
Depois
do grande incêndio, que parece ter eclodido na Deichstrasse,
Hamburgo vestiu-se de novo e parte dos antigos edifícios foram
reconstruídos segundo novos gostos e critérios. Como é o caso do
estilo neogótico da igreja de St. Petri, cujas origens remontam
aliás ao século xii, e da igreja de St. Nikolai, que, passados
apenas 100 anos, foi de novo reduzida a escombros pela guerra: hoje
nada dela resta a não ser a torre neogótica que se eleva a 145
metros.
Infelizmente,
depois do incêndio, Hamburgo viria ainda a sofrer a fúria
destruidora da Segunda Guerra Mundial, que reduziu a ruínas mais de
metade das habitações, quase todo o porto e 40 por cento das
indústrias. Em 1897 foi construída a Rathaus, ou seja, os Paços do
Concelho, no estilo ecléctico da época Guilhermina e, em 1839, o
Palácio da Bolsa, que lhe fica adjacente. Fronteira a estes
edifícios abre-se a Rathausmarkt, ou Praça do Município, rodeada de
construções neoclássicas e banhada pelo Alsterfleet, onde nadam
tranquilamente cisnes e patos.
Ainda que
possa parecer estranho numa grande cidade, Hamburgo deve ser
visitada a pé, pois só assim é possível apreciar o seu fascínio,
feito de recantos particulares, de pontes que galgam os canais
revelando perspectivas pitorescas; o centro histórico é tão denso e
cheio de vida que nem parece pertencer a uma metrópole.
Memórias
Vagueando pela
Altstadt pode-se apreciar plenamente zonas como o Bairro dos
Mercadores, que se desenvolveu no início do século xx com
estruturas características de tijolo vermelho, obra do arquitecto
expressionista Fritz Hoger. O mais famoso dos seus edifícios é a
Chilehaus, construído em 1920 para habitação por um rico
comerciante que tinha feito fortuna no Chile, de onde deriva o
insólito nome.
O edifício da Kunsthalle é
logo a seguir à estação ferroviária para norte. Foi construído em
1868 e ampliado em 1919. É hoje sede de um museu onde se conserva a
maior colecção de arte de Hamburgo. As obras que estão nas suas
salas vão da Idade Média até ao século XX, além de uma secção
dedicada à arte contemporânea.
Na galeria dos
mestres antigos estão 36 painéis provenientes do altar-mor de St.
Petri, executados em 1383 por Mestre Bertram. Há uma área
inteiramente dedicada à pintura alemã do século XIX.
Na Neustadt a grande
igreja barroca de St. Michaelis, construída em 1907 sobre um
edifício anterior, é famosa, para além da sua beleza, pela vista
sobre o porto que se pode admirar do alto dos 132 degraus do seu
campanário, e também por ter recusado a Bach o cargo de organista.
Talvez para se desculpar de tão grosseiro erro, oferece hoje
belíssimos concertos nos seus três órgãos, sendo frequente que os
2500 lugares sentados se esgotem.
Num pequeno
beco denominado Krayenkamp, junto a St. Michaelis, encontram-se as
Krameramtswohnungen, as Casas das Viúvas, construídas em 1676 como
habitações para as viúvas dos membros da corporação dos pequenos
comerciantes. São das poucas construções originais do século xvii
poupadas pelo terrível incêndio de 1842. Durante dois séculos
mantiveram a sua função, depois tornaram-se apartamentos para
idosos até se transformarem em atracção turística. Isto foi decerto
uma coisa boa, pois são de tão reduzidas dimensões, que é difícil
movimentarmo-nos no seu interior. Mais parece terem sido
construídas para uma família de gnomos que para as viúvas dos
mercadores, de tal forma são pequenas as salas, baixas as portas ?
a ponto de nos obrigar a curvar ?, e estreitas as escadas. Como se
não bastasse, também o beco onde se situam é estreitíssimo. No
entanto, a sua estrutura em madeira e alvenaria mantém intacto o
fascínio de um passado que, a não ser ali, o fogo destruiu para
sempre.
A atmosfera
da antiga Hamburgo ainda se pode respirar também no empedrado da
Peterstrasse, uma travessa de Holsten Wall que percorre o Parque
Grosse Wallanlagen. Numa das suas belíssimas casas barrocas
completamente restauradas, a que tem o número 39, nasceu o
compositor Johannes Brahms. É uma das 18 casas em que o famoso
músico morou em Hamburgo e é hoje a sede da "Brahms Gesellschaft",
onde se guardam manuscritos e móveis da época que foram do grande
mestre. Realizam-se também concertos de câmara com as suas
composições menos conhecidas. Um passeio pelo relvado do Grosse
Wallanlagen e chega-se ao Justizgebaude, os Paços de Justiça, e
ainda mais além encontra-se o edifício neo-barroco da Musikhalle,
na Karl-Muck-Platz, sala de concertos e sede da Orquestra
Filarmónica do Estado de Hamburgo.
Não
esquecer uma incursão pela modernidade e pela tecnologia: a Torre
da Televisão de Hamburgo atinge os 280 metros de altura. A
plataforma panorâmica e o restaurante giratório estão à quota dos
128 metros, o suficiente para jantar perante um panorama
excepcional.
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